Xique Pra Dedéu
Bem mais do que uma extinta gíria…

fev
04

_ Você vê a lua ou a observa?

_ Eu observo, tem dia que ela brilha lá no céu, com as estrelas…

_ Então você quer dizer que vê, né?

_ Como assim?

_ Ver é passar os olhos, enxergar… Observar é curtir, admirar, criticar, nutrir algum tipo de sentimento…

_ Você ta bêbado?

_ Não, cara, quanto a lua não ta lá, o que você observa?

_ As nuvens, cara!

_ Não, você as nuvens que ficam. O que você observa é a ausência…

_ Ausência de quê? Da lua?

_ Não só da lua, mas da luz dela, também da energia, dos sentimentos da lua… É ela que te guia pelo escuro (à noite) e te dá esperanças para um dia que vai ver… Que te enche de perspectiva, faz mistério, um jogo de sedução…

_ Como assim, sedução?

_ Cara, a lua é uma espécie de prostituta de luxo. Sempre lá, esperando um cara rico.

_ Lua caçando cara rico?

_ Não, sô, a lua é como a prostituta. A prostituta quer o cara rico… A lua não, ela sempre busca quem a admire… Um cara que cuida, que dá carinho. A lua é mulher, cara… Mas só pega quem observa bem, sacou?

_ Agora sim, as mulheres eu observo e bem.

_ Meu, a lua pra você é só uma coisa redonda?

_ É sim, ué…

_ E peito e bunda, tem que ser redondos?

_ Tem também…

_ Então me diz, você só vê a lua ou observa?

_ Eu vejo a lua e observo as mulheres, falou?

_ Eu observo a lua e as mulheres….? Ah, eu prefiro amá-las, entende?

_ Aí já é demais…

_ Como num baile de máscara, mano, o que você vê?

_ Eu vejo as pernas das mulheres, os peitos…

_ E os olhos, cara?

_ O quê que tem?

_ A máscara não pode te negar os olhos, cara…

_ O que tem a ver? Senão a pessoa fica sem enxergar…

_ Ou sem seduzir, né? Cara, pensa só: uma mulher usa um vestido com decote pra te seduzir?

_ Claro, ué…

_ E uma mulher, dessas você olha nos olhos?

_ Sei lá, cara!

_ E uma mulher que tem aquele decotinho, mas você a olha nos olhos?

_ Qual mulher?

_ Qualquer uma, cara, desde que você saiba olhar nos olhos.

_ Como assim?

_ Cara, quando uma mulher usa um vestido decotado, ela quer que você a olhe nos olhos… Mas roupa de piriguete não conta.

_ Do que você ta falando?

_ A mulher ousa, mas não vira vulgar. Ela é sedutora, fascinante, saca?

_ Ahn, e aí?

_ Ela usa um vestido curto, não um pedaço de pano daqueles… E é aí a hora que você saca? Ela te mostra as pernas, os peitos e tudo diretamente, mas ela espera encontrar seu olhar pra te dar a piscada como o tiro fatal, fulminante! Ela te seduz e quando você a encara, naquele joguinho de conquista, você a seduz também… E tudo isso olhando nos olhos, cara… É fascinante!!

_ Cara, você tá doidão…

_ É como a lua, mermão….

_ Hein?

_ A lua é aquela prostituta que eu te falei, a lua é uma mulher, entendeu?

_- cara de que não entendeu poha nenhuma… _ Saquei, saquei…

(Dimas Magalhães)

fev
02

Faço questão de fazer diferente

De ser ambíguo, mas não inconseqüente

Faço questão de ir adiante

Pensar depois o quanto penso antes…

 

Não é que eu não tenha espelho

Mas prefiro refletir sobre o que passa

Na cabeça do desentendido

Coitado – “cabeça oca, coração caça…”

 

Não para ser triste.

Tristeza lá é coisa de se ser?

Nem ameno, irreal ou estirpe

Na verdade, nem era para aparecer…

 

Você com essas coisas estapafúrdias

Menestrel de colóquios intermináveis

Sujismundo, mequetrefe ordinário.

Você e sua corja de deploráveis…

 

Não agüento mais você com essa cedilha…

Fale mais alto, pois não há quem trema

Até mudaria de ideia, mas antes que você almeje:

Não existe menas, nem poblema, nem seje…

Mas você ousa ir além e se torna traidor

E eu vou-me embora, antes que Judas me beije…

 

Pois eu, faço muita questão

De ser diferente, tendendo para o bem

Vagabundo, maldito e “mal pago”

Neste país pra todo lado tem.

Mas isso não implica, por mera circunstância,

Que eu deva ser igualmente hipócrita também…

(Dimas Magalhães)

jan
06

A chuva não para e a cidade se rende

Vem abaixo, desabando

Como uma palavra que ofende

Quase vejo a cidade chorando

 

A chuva não para. E a cidade?

Parece que quer fugir

É quase uma pessoa se lamentando

A cidade inteira não sabe pra onde ir.

 

As montanhas que protegem, matam.

A montanha que mata nos abraça.

Outrora eram os caçadores e o ouro,

Hoje parece que somos a caça.

 

Posso ouvir um bom dia receoso

N’algum lugar bem escondido.

Não tem espaço pra riso ou comédia

E eis que o arco-íris colore a tragédia.

 

A chuva não para e a cidade se esconde

Mas “há perigo, seu moço, na casa ao lado”

E na outra e na outra… o perigo é tanto

Que o que resta pras pessoas é oração e cuidado.

 

Pessoas que vão e vem pra todo lado

E pessoas que somente se vão.

Pessoas com o lar abandonado

Pessoas que dizem “Amém!”

Em meio às lágrimas, choro calado.

E algo me diz que Deus chora também…

(Dimas Magalhães)

[Essa é, talvez, a melhor forma de demonstrar toda a minha apreensão e medo pela situação em Ouro Preto neste mês de Janeiro/2012]

dez
23

Se houver um momento de revolta

Em que eu precise ser rocha,

Sem deixar de ser humano…

 

Se houver um momento de inquietação

Se eu me tornar o que nunca fui,

Que seja só por um segundo,

E se sentir que machuquei seu coração…

 

Ou quando me sentir solitário

E a saudade virar um fantasma,

A tristeza me guiar a algum lugar

Onde sei que estarei inseguro…

 

Se houver um momento de desespero,

De atitudes e pensamentos incontroláveis.

Se o horror superar o desejo

E as coisas se tornarem insuportáveis…

 

Ainda que não haja momentos ruins,

Mesmo que a felicidade seja plena

Quando eu começar a olhar pra mim

A procurar a tal felicidade eterna…

 

Deixarei entrar sua lembrança, seu sorriso e sua voz.

Assim para me sentir confortado,

Sabendo que já estive ao seu lado.

Naquele momento o sorriso fluiu sem querer

Simplesmente feliz, simplesmente por você…

(Dimas Magalhães)

dez
23

Sabe…

Meu coração anda sem jeito,

Fica batendo no meu peito,

Vive tentando escapar.

 

É…

A vida é mesmo um debate

E o peito forte ainda rebate

As dores que querem se instalar

 

Faz…

Tanto tempo que passou

E meu amor ainda ficou

Apenas tentando te encontrar…

 

Sei…

E só eu sei o quanto o grande

O quanto o meu amor abrange,

Luto só pra você voltar.

 

Sonho…

Com tardes lindas e nós dois

Aproveitando cada instante.

Não deixar nada pra depois

E eu sendo o seu eterno amante.

 

Foi…

Lutando que fortaleceu

Aquela dor que não doeu

Mas que acabou por derrubar.

 

Caí…

Sofrendo com o platonismo

Preciso acabar com isso,

Parece que vou delirar.

 

Dez…

São de Deus os mandamentos

E também todos os momentos,

Que eu consigo recordar.

 

Mas…

Apesar de não entender

Sei que sempre vou tentar

E também sempre vou saber

Mas não posso te falar…

 

Chorei…

E sofri com o abandono

Que tanto me fez aprender

Quanta dor cabe numa vida

E o quanto é bom viver…

(Dimas Magalhães)

dez
22

Vale a pena quando a torre é grandiosa
Vale a pena quando o abismo é profundo
Vale o mundo quando a vontade em prosa
Que preza o amor em seu leito, quase moribundo
Um menestrel ancorado, um cantor de rua
Vagabundo apaixonado, mas ainda vagabundo…

Beberrão incontrolável, seresteiro da noite
Boêmio irreparável, bandoleiro da corte
Bandido dos corações saltitantes
E das pregas das saias de cada donzela
Perdido entre o que era antes
E o que será depois, quase cinderela.
Um Pierrot sem Colombina
Este, sem menina, um Don Juan da favela…

Encantador de olhos e de corpos
Acima das suspeita mantém sua conduta
Com ardil, vil e sedutor
Nobre companheiro de uma prostituta.
Cordial e galante entre as damas
Entre os homens, campeão de luta.

De caminhar vagaroso, solfejando uma canção
Mal pode imaginar o problema já formado
De tão acostumado a enganar o coração
Jamais imaginou seu coração dilacerado.
Desatento, pujante e esnobe…
Trocou de enganador e passou a ser enganado.

Não por traição, nem por desrespeito
A enganação lhe veio com nobreza
Não conseguir olhar com desdém
Para a tal dama de tamanha beleza
Não conseguia disfarçar o sentimento
E lidava com ele sem a menor destreza.

Foi amor cruel ao qual não se entregou
Sofreu calado, em pranto e dor.
Coração abarcado, se afogando em lágrimas,
Conhece-te o mal de que és causador?
Sufocou ainda mais o pobre coitado
Pois disso ali não queria ser portador.

Coração morto, do alto da torre
No fundo do abismo jaz
Nem grito, nem sussurro, nem gemido
Enfim, coração vagabundo, encontrou alguma paz.

(Dimas Magalhães)

dez
21

Para que saibam que minha vida é assim:
Sou feliz por essência,
Triste por conveniência
E modesto por excelência…

Um dia, talvez até sem querer,
Descobri que todos os caminhos que sigo,
Levam-me a me perder…
Perdido que sou, insisto em percorrer…

Quem sabe desacreditar do destino
É o que me faz persegui-lo?
Pensar que a censura e a repressão
Sejam só uma questão de estilo.
É possível até que a indignação
Seja o que te faz ser mais tranquilo.

Acredito na dúvida e na ambigüidade
Na necessidade da contradição
Na eloqüência de cada possibilidade.
Numa eventual ilusão
Acredito, também, na agressividade

Em momentos que a vida é um senão
Não há veneno que cesse o desamparo
Para que saibam, minha vida é assim
Um único sorriso é um preço caro.

Sofrendo, aprendi a valorizar os momentos
E calar minha tristeza.
Numa madrugada fria e solitária,
Não me importo em lembrar o passado
Pois o que me faz sorrir delirantemente
Foi ter, um dia, o coração despedaçado.

(Dimas Magalhães)

dez
19

Sou o único habitante desta terra
Solitário e sorridente
Soberbo e sombrio.
Lugar comum que a felicidade não erra
Sem guerra entra a gente
Terra de calor e também de frio.

Sou trabalhador assalariado
Sofredor e exigente
Reivindicando direitos.
Sou empregador e empregado
Conturbação tão eloqüente
Que me perco em meu próprio jeito.

Sou carta marcada num baralho
Que tem somente uma cor
E ninguém sabe jogar o jogo.
Sou um pedaço da colcha, um retalho
Que te cobriu numa noite de amor
E se findou atirado ao fogo.

Sou resgate pro seu acidente
Pro desastre cotidiano
Pra monotonia de um feriado
Tenho uma ferida aparente,
Me lembro que sou só humano
E que sou quase desgovernado.

Sou governante absoluto
Sou bandido procurado
Foto impressa no cartaz que rasguei.
Evito o sistema corrupto
Não sei se estou certo ou errado,
Não sei quem é servo e quem é rei.

Sou rei de um mundo fantástico,
De uma questão indecifrável,
De um universo sem fim.
Um reino do apático
Do só e do inestimável.
Sou o rei de mim!

(Dimas Magalhães)

dez
19

A madrugada sussura no ouvido
As verdades que os outros não podem saber.
Mas também dá uma surra muda
Naquele que não consegue compreender
A madrugada se apega aos fortes
Mas também se entrega sem nortes
Aos que permitem se atrever…

Quando a madrugada sorrateira chegar
Implorando carente um pouco de atenção,
Rejeitando a indiferença do teu sonhar,
Impregnando-te em profunda solidão…
Quando ela vier soberba e pujante
Com um vento quente de estupidez
Esnobe, insuportável, arrogante
Sem sequer mera fagulha de altivez…
Ou quando madrugada for barulho
Festa com os amigos, bebidas
Sinônimo maior para teu orgulho
Atribuindo algum valor às suas vidas…

Estenda-lhe os braços e tapetes vermelhos
E não lhe negue um pouco de compaixão
Ainda que não necessites conselhos
Madrugada sempre será amiga da sua inspiração…

(Dimas Magalhães)

dez
16

Trate de se vestir antes de sair
Trate de arrumar o seu quarto
Trate de não chorar, pra poder sorrir
Trate de perceber o real e o abstrato.

Dê o devido tratamento aos puros
E não se esqueça de se purificar
Não adianta tratar a tapas e murros
Aquilo que não se quer cuidar

Cuide de respeitar os tratados
A palavra deve ter muita importância
Trate de se manter bem cuidado
E saiba estabelecer distâncias…

Trate do ato e da conseqüência
Da tranqüilidade e da emergência
Da virgindade e da indecência
Do vício e da abstinência
Trate de livrar a culpa da consciência
Trate a questão anterior como o ápice
Trate de não se tornar um mero tratante,
E, finalmente, trate-se!

(Dimas Magalhães)

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